O PAPEL DA COLONIZAÇÃO AFRICANA NA PERCEPÇÃO DO CORPO DA MULHER NEGRA: uma leitura de O Alegre Canto da Perdiz

 

 

 

 

 

 

Publicado em June 24, 2015 em www.revistasatori.com

 

 

Jacqueline Oliveira

 

 

 

Prólogo.      

O presente trabalho pretende mostrar, num primeiro momento, de que forma a nudez da mulher negra africana pode ser entendida como integrante de uma cosmovisão associada à liberdade e pureza[1]. Num segundo momento, busca-se observar como a consciência histórica do sistema colonial ignorou tal padrão estético corporal, buscando aniquilar sua representatividade enquanto ser. Tomamos como corpus literário a obra O alegre canto da perdiz, da escritora moçambicana Paulina Chiziane. Acreditamos que nesse texto a personagem da ficção constrói-se com tal força do imaginário coletivo, que podemos projetá-la em tantas outras Marias das Dores por aí. Optamos por eleger um romance que, além de tratar a questão da mulher enquanto indivíduo, já denunciava movimentos como o sexismo e machismo, decorrentes do processo colonizatório. Além de enfatizar de maneira objetiva a importância do sistema matriarcal e o respeito ao mais velho. A ideia de que existe hibridismo interno na própria diáspora negra africana contribui para a reflexão de uma ressignificação das Literaturas Africanas, e é frequente neste trabalho.

 

 

INTRODUÇÃO

 

 

“Se queres conhecer a liberdade

segue o rastro das andorinhas”

Paulina Chiziane

 

 

 

Há muito se sabe que o corpo negro, aqui o da mulher negra é envolto por estigmas concebidos que possuem origem no pensamento característico das populações do berço nórdico. Este corpo é visto como funesto. Contudo, o que não é frequentemente colocado em discussão são os fatores que levaram a essa visão deturpada e negativa do corpo feminino, sobretudo em África, espaço extremamente atingido e sofrido com o processo colonizatório[2].

A influência exercida pela colonização é muito mais ampla do que se possa perceber, do ponto de vista social, político, econômico, cultural e antropológico. Ela dissemina consciências históricas que se perdem no tempo e na composição histórica dos povos, mas que, no entanto cunham novos significados na medida em que os papeis sociais são modificados pelas dinâmicas sociais no percurso da história. Procura-se observar a fala de mulheres negras que contam suas próprias histórias e, assim, analisar as consequências da transfiguração étnica da mulher negra africana e da diáspora. Reconhecendo assim o patriarcado e suas designações que culminaram em estruturas de racismo, xenofobia, machismo, xenofilia entre outros. Como fios condutores da objetificação do corpo negro em sua existência cultural/social.

O espaço geográfico e de concepção do romance é marcado por conflitos interpessoais e intrapessoais de quatro personagens mulheres. Constroi-se no seio de uma sociedade tatuada pelos efeitos da colonização e confusa em suas gerações pela ausência de ambientação histórica. As componentes da narrativa sendo mãe, filha e avó vivem as mesmas angústias ocasionadas pela branquidade e por ascensão social através do relacionamento interracial, tendo com isso a desfiguração do papel materno, que é a ponte de todas as relações e papeis assumidos no desenrolar do drama contado em forma de narrativa.

A partir desses escritos, busca-se pensar sobre os efeitos negativos das consciências históricas estruturais e práticas empregadas durante o processo de colonização no berço meridional e como estas consciências contribuíram para que mulheres negras africanas e da diáspora construíssem uma visão maculada acerca de seu corpo, e diferentes significados assumidos nas sociedades pós colonizadas.

 

 

 

CORPO DE LUTA, ESPAÇO DE RESISTÊNCIA: Fonte para uma Negociação em Contexto Colonial.

A partir do processo de colonização propaga-se uma lógica de imposição baseada na subserviência e coisificação do outro, justificada pelo pensamento de uma “suposta” raça superior. As diferenças fenotípicas foram usadas por populações leucodérmicas como alicerces para uma ideia de maior grau de evolução cultural e, principalmente, intelectual entre o colonizador e o povo colonizado[3].

Em um processo de colonização, a apropriação do corpo do colonizado como capital cultural é a maneira que o colonizador tem de exercer a sua dominação, transformando-o assim em “mão de obra” escrava.    Neste sentido vale observar não somente as mulheres negras, mas também os homens negros, na medida em que a morada de seu espírito passa a ser comercializada, traficada e recalcada para ser utilizada como força de trabalho. É através do corpo, então, que se dá todo o escopo de dominação e superioridade racial baseados na fenotipofobia em relação às populações negras.

Os efeitos dessa mentalidade de superioridade racial foram nefastos no que tange à identidade e autoestima do povo africano. Obrigando assim que o corpo negro entrasse em espaço de negociação.     Durante todo o processo de ocupação e dominação, o corpo feminino foi tomado como um meio de execução de forças, em vários, e todos os sentidos.  A mulher negra sempre esteve sob diversas vitimações e propensa a julgamentos por qualquer motivo, haja vista as convenções dos costumes tradicionais africanos, nos quais está inserida tendo papel de destaque na organização de seu povo, uma vez que o sistema girava ao seu redor com o matriarcado. Sendo assim, o corpo da mulher negra é duplamente subjugado e assujeitado, isso ocorre não somente pela sua cor, mas também pelo seu gênero que dentro da perspectiva genealógica europeia não possui valor a não ser o da reprodução e peso que o homem deveria carregar sobre suas costas, segundo Cheikh Anta Diop. A partir disso, seu corpo é apropriado, sobretudo sexualmente, pois essa passa a ser, também, uma expressão de triunfo por parte do colonizador. A ver:

 

 

“Os navegadores correram de aldeia em aldeia, derramando sangue, profanando túmulos, pervertendo a história, fazendo o impensável. A Zambézia abriu o seu corpo de mulher e se engravidou de espinhos e fel. Em nome desse amor se conheceram momentos de eterno tormento e as lágrimas tornaram-se um rio inesgotável no rosto das mulheres. As dores de parto se tornaram eternas, os filhos nasciam apenas para morrer, eram carne para canhão. O povo tentou, inutilmente, transformar os corações em pedra para fugir à dor, à morte, à opressão”. (CHIZIANE, p. 21)

 

 

 

O processo de apropriação indiscriminada do corpo das mulheres negras causou efeitos físicos, mentais, espirituais e, acima de tudo, psicológicos, extremamente graves na população feminina. A mulher passou então a ter outra visão sobre si e sobre seu próprio corpo. O corpo da mulher negra assume, ainda, nesse momento de distorção e distúrbio, uma tripa condição, pois ora ele é procurado pelo branco para descarga de suas vontades e realização de seus desejos – entendendo que no imaginário do colonizador o corpo da mulher negra é um espaço de ardência e lascividade –, ora tomado pelo mesmo exclusivamente para o trabalho, ganhando assim a mulher o “papel” de mulher labor e hora tomada pela atividade sexual, como mulher sexo. Tendo em vista que o papel “objeto” já é posto desde o primeiro momento.

Essa tríade posta pelo colonizador faz com que a mulher entre em espaço de negociação com o seu próprio corpo. Uma vez que a mesma compreende, ainda que de forma alienante, que pode se fazer valer de algum benefício com o seu opressor. A ver:

“Essa era a realidade que estava posta para as mulheres africanas racialmente escravizadas: apesar de se perceberem como gestoras de vida político-econômica e de civilização, pelo seu lugar na sociedade colonial e escravagista era com fardo que exerciam qualquer posição que excedesse a condição de mulher objeto, mulher sexo e mulher labor. Portanto, dentro da estrutura de dominação e opressão que pesava sobre elas, as mulheres negras viram-se fadadas a reconstruírem-se como mulheres nesse curto espaço de negociação.” (BOMFIM, 2009, p. 239/240).

 

Com o decorrer de todo o processo de colonização e sua implementação do ideal europeu de brancura, a visão da mulher negra sobre seu corpo se transfigura. Ela passa agora a rejeitar-se a fim de ser aceita e de tentar mudar um pouco sua história[4]. Assim, a mulher negra se apropria de seu corpo e o utiliza como um espaço de resistência. Este corpo passa a ser a única coisa sobre a qual seus detentores poderiam exercer algum tipo de poder, já que suas vidas e destinos estavam entregues ao futuro, sobre o qual não tinham nenhuma certeza ou previsão, apenas desejos.

 

 

 

CABAÇA DA EXISTÊNCIA: Um Rio de Fertilidades

 

 Após percorrer um pouco pela historicidade construída dentro das correntes coloniais. Aqui, dá-se visibilidade para a narrativa de denúncia social, que de nada tem a ver como alguns podem pensar com análise sociológica, e sim com a projeção do gênero ficção que ao elucidar fatos do período colonial, não poderia deixar de falar das dinâmicas presentes e de deis resquícios em qualquer sociedade. Assim o segundo momento desta pesquisa se faz perceber no âmbito da crítica e desconstrução a partir das entrelinhas do texto literário, do dito pelo não dito, da subjetividade que em alguns momentos se faz presente. Ratificando que a noção flutuante de suposições não ganha espaço neste campo de investigação, pois o conjunto em si literário abarca o espaço físico, mental e espiritual africano e nas palavras de Diop, não é cabível de compartimentação.

Na continuação do fluxo histórico desta “contação de histórias” percebemos em diversos trechos a confusão causada na vida das famílias de Moçambique que viveram sob o jugo da colonização, assim como fica expansivo e cada vez mais aparente a capacidade do pensar a sua própria autonomeação, o seu espaço no mundo. Uma vez que este corpo foi deslocado mentalmente de sua própria cultura impossibilitando sua construção identitária enquanto indivíduo do povo Chope.

Quando falamos e introduzimos a reflexão sobre a cosmovisão em África. Estamos na verdade, retomando a linha de raciocínio baseada na fotografia do saber oral que é a escrita. Identificar que nas culturas onde o idioma “oficial” ficou sendo o português a majoritariedade é de grupos do tronco linguístico Bantu torna-se fundamental para ampliarmos o nosso olhar nas entrelinhas da escrita de Chiziane e identificar essa tradição em linha matrilinear concomitante com a patriarcal.

Toma-se aqui, o olhar da pesquisadora espectadora e mulher negra, as imagens desse fruto ancestral, cabaça, que remete ao útero feminino. Das muitas projeções que o nascimento nos traz e a certeza de que nossa continuidade será sempre um acolchoado de amor e canções em ritmo das águas. Um balançar de ondas em meio à fúria dos rios e as ondas dos mares.

Segundo estudiosos como Joseph Ki Zerbo, Nsang Kabwasa, Hampàte Bã, entre outros: “Na África a velhice é uma fase privilegiada no círculo da vida”. Partindo dessa cosmovisão entendemos melhor o pensamento do povo africano e tomamos para entendimento o porquê dessa tradição milenar de procurar o mais velho para conceber aprendizados, construções e abrigo.

Chiziane reapropria os valores culturais dos Chopes em sua literatura, quando no começo de O Alegre Canto da Perdiz, usa do trinômio colonização x pós colonização x antecolonização para levar o leitor à reflexão dos valores transpostos pelo pensamento ocidental em seu modo-operandis que assimila físico, mental e espiritualmente o povo africano. Negando dessa maneira qualquer possibilidade de sua existência.

 

A recusa do corpo do outro, seu irmão, no sentido de pertencer ao mesmo povo, deixa claro a musicalidade textual de “acusação” provocada pela liberdade de Maria das Dores ao aparecer nua, se banhando em um rio.  A ver:

 

 

 

 

 Há uma mulher nua nas margens do rio Licungo. Do lado dos homens. — Ah? Há uma mulher na solidão das águas do rio. Parece que escuta o silêncio dos peixes. Uma mulher jovem. Bela e reluzente como uma escultura maconde. De olhos pregados no céu, parece até que aguarda algum mistério. —Quem é ela?”“.

 

 (CHIZIANE, 2008, p.01)

 

                

A valorização do mais velho é presente nas linhas que inscrevem as marcas pós coloniais do modo de pensar dos então moçambicanos assimilados pelo português. Esta resistência se dá ao fato da preservação do saber, narrar, contar daquele que viveu mais tempo e passou por diversas transformações. Nos seguintes trechos observamos:

 

 

“— Calma, criaturas. Não houve presságio nenhum na guerra que foi, mas morreu gente. Não houve anúncio na seca que findou, mas houve tormenta. Não houve profecias misteriosas antes da praga de gafanhotos que dizimou os campos e nos matou de fome. A voz da mulher do régulo era chuva fresca. Tinha o poder de serenar multidões. Era o poder das ondas mansas embalando as embarcações na valsa da brisa. — Ah, senhora! Se visse a forma misteriosa como ela veio! Insultámo-la e respondeu-nos com gozo no rosto. Lançámos pedras e ela escapou

como um peixe. Não era pessoa deste mundo, não. — Coitada, não passava de um rato à procura de uma toca. Ou uma mandioca. Era um ser solitário em busca dos seus semelhantes. Por que a expulsaram? A multidão começa a arrepender-se. Ela tinha a forma humana, viram. Que nascera do ventre feminino, como elas, como os sapos, os peixes, as algas dos pântanos. Que a mulher tinha a sua história, as suas marcas, as suas cicatrizes. Nela se espelhava a fragilidade da existência. A multiplicidade dos caminhos. Doenças, mágoas, lágrimas. Sonhos derrubados, ansiedade, desespero. Só Deus sabe de onde ela veio. Só Deus sabe as lágrimas que ela chorou. Só ela pode contar as alegrias que o coração colheu. Os caminhos que percorreu. Só Deus sabe como é que ela aqui chegou. Talvez navegando no dorso das tartarugas. Na carapaça dos crocodilos. Na boca dos peixes, no rendilhado das algas. Na corrente da brisa. — Ela trazia uma boa nova escrita do avesso — garante a mulher do régulo. — Mensagem de fertilidade. Essa maluca era a verdadeira mensageira da liberdade, minha gente.”

(CHIZIANE, 2008, p.6)

 

                

A fala da mais velha explica o significado do corpo negro de Maria das Dores através de sua presença física, mas procura elucidar que o corpo feminino, sobretudo o da mulher negra, traz mensagens de fertilidade considerando-a como mãe genitora do mundo, além de mencionar as marcas da violência psicológica. Com isso este corpo une-se ás águas do rio e torna-se um único líquido fértil dentro da cosmovisão de África. Aquele que gera a vida e à vida. 

Seguindo por uma história contida de percalços a sabedoria da matriarca é observado o chamar de atenção das mulheres para os efeitos da colonização, ratificando que antes toda a comunidade vivia da forma como a mulher se apresentara no rio, nua. Explicando que o sentimento de medo, solidão, abandono e disputa entre mulheres são fenômenos construídos no ceio do colonialismo e que foram introduzidos por este sistema. Ou seja, a mais velha traz a experenciação ante colonial da vivência do próprio povo africano para mostrar às mais novas o perigo do aprisionamento do pensamento ocidental.

 

Percebemos então, desde o início, os temas que permearão o romance e que mostrarão todo sofrimento causado pelo colonialismo. Sofrimento esse que se traduz na relação de poder que é centralizado no corpo das mulheres negras.

Além disso, o romance mostra também uma face cruel de um relacionamento cujo ideal é de cumplicidade e cuidado, que é a relação materna. Na história, Delfina, mãe de Maria das Dores, entrega a virgindade de sua filha a um feiticeiro em troca de ajuda para ganhar dinheiro. Neste instante visualizamos o único capital do qual as mulheres dispunham: seu corpo. E ele passa a ser usado como moeda de troca, como podemos perceber na seguinte passagem: “Morre tudo naquele instante. A infância. A inocência. Apagam-se todas as estrelas em sinal de luto. O acto é violento, frio, com todos os requintes de um martírio. Maria das Dores estava a ser violada.” (CHIZIANE, 2008, p. 256).

A figura materna aqui é colocada em questão de forma controversa, uma vez que a sua imagem mais difundida é de proteção extrema e infindável. Como rapidamente abordado, o corpo feminino passa a ser usado como um meio de resistência. Contudo, essa resistência assume diversos significados. A forma encontrada pelas mulheres contadas por Chiziane é usar esse corpo como degrau para um triunfo social. Triunfo esse traduzido como uma relação com um homem branco, pois pertencer ao mundo dos brancos é um estado de glória para quem foi execrada a vida toda e jamais imaginaria alcançar os confortos oferecidos por esse mundo quase inatingível. Tal situação pode ser observada no seguinte trecho: “Sou a primeira negra a viver na cidade alta, ao lado dos brancos.” (CHIZIANE, 2008, p. 223).

Essa é mais uma das formas de reverter a seu favor a opressão sofrida durante toda a vida pelo fato de ser negra. Essa atitude de ascensão social através do contrato sexual com o homem branco, pelo próprio corpo, pode ser traduzida também como uma forma de autoafirmação. Não somente a conquista de outros estratos sociais, mas também as outras formas de resistência onde mulheres utilizam seu corpo podem ser entendidas – também – como uma forma de mostrarem ao colonizador que, embora a determinação deles seja outra, elas conseguem, sim, chegar onde querem.

O entendimento do trinômio traçado através da prosa moçambicana está na literalidade das marcas linguísticas que o próprio texto traz ao manter o português como idioma de divulgação literária, mas construir elementos linguísticos como o Chope numa forma de reapropriação incentivando umas das marcas culturais mais importantes para a sobrevivência e manutenção de um povo que é a língua.

                    

 

 

“TODA A MARIA TEM OUTRO NOME”: O Simbolismo do Nome Africano, uma Reapropriação Cultural.

Certamente o texto de Chiziane nos chama atenção ao mencionar o grito na primeira linha de seu livro. O refrão que a autora menciona ganha múltiplos significados ao relacionar o nome Maria das Dores como um nome bem apanhado para exemplificar a condição sócio-econômica, política, física, espiritual e mental da mulher negra. A ver:

— Disse chamar-se Maria — explica uma das mulheres. — Será mesmo esse o seu nome? — pergunta a mulher do régulo. Toda a Maria tem outro nome, porque Maria não é nome, é sinónimo de mulher (CHIZIANE, 2008, p.06).

 

Segundo pensadores africanos como Amadou Hampaté Bâ, o simbolismo do nome africano está diretamente ligado ao caminho daquele indivíduo que no futuro se tornará um homem ou uma mulher. Ele rememora à ancestralidade em sua gênese, ele é a gênese em si de populações africanas.

Alguns povos do tronco linguístico Bantu utilizam a sabedoria oral “ondaka usongo”, a palavra é a flecha, para ratificarem a importância do significado dos nomes. O nome carrega consigo características culturais de um povo. Ele demarca a genealogia, a possibilidade de reorientação histórica, a linguística propriamente dita. Ele em si marca a sobrevivência ancestral de populações dentro da perspectiva e cosmovisão africanas.

Ao brincar com o nome Maria numa espécie de figura de linguagem, a autora constrói em seu texto um processo metafórico aonde nos remonta à herança judaica cristã que em sua constituição aniquila povos com traços fenotipicamente negros, e os caracteriza como sem história, sem alma e sem Deus. Dessa maneira durante o processo de escravização do continente africano os homens e as mulheres negros e negras se viram recebendo um novo “nome”, nova “identidade”, nova “língua” e um novo “Deus”. O que reforça mais uma vez o caráter hediondo que o colonialismo implantou durante séculos em negros africanos e afro descendentes. Tornando assim quaisquer características culturais advindo de África como exóticas e ridículas. De tal maneira que o arcabouço literário da vivência Chope de Chiziane nos exemplifica com registros orais na composição da narrativa social.

O recurso metafórico ainda nos aponta para a singularidade do nome “Maria” que dentro da cultura cristã vem a ser a “Mãe de Cristo” e uma “santa” da igreja Católica, que concebeu uma criança através da força ativa do “Espírito Santo”. Chamando a nossa atenção para a oposição de pensamentos entre valores culturais eurocêntricos como os símbolos da “virgindade”, “santidade” e dos valores culturais africanos, que em sua historicidade se apresentam de maneira diferenciada, já que em espaço de África a mulher tinha o papel central de decisões em relação às dinâmicas sociais que se estabeleciam.

Com isso a duplicidade que se instaura na identidade e pertencimento de Maria das Dores é ressignificada com a tomada de reflexão que o as mulheres da aldeia fazem, sem ao mesmo perceberem, que estavam ali renegando o nome adotado pela aculturação com o europeu.

 

 

 

CORPO MARCADO: Tatuagens Inseridas pela Dor e Reorganização Social.

Compreende-se a densidade das linhas escritas por Paulina Chiziane ao narrar a história de mulheres negras no espaço de Moçambique, na medida em que as entrelinhas de seu texto nos levam para a reorientação espitêmico filosófica da historicidade das civilizações africanas. A narradora consegue trazer para seu livro a história de toda uma sociedade maculada pelos duros golpes colonialistas projetando o mesmo como um sistema opressor que deixou marcas difíceis de serem apagadas, que se espalharam por toda a diáspora e que perduram até os presentes dias.

Na obra, percebemos como também as relações familiares, interpessoais e, acima de tudo, intrapessoais foram prejudicadas numa espécie de mimese social. Chiziane nos mostra um diálogo da relação distorcida da mulher com seu corpo curvilíneo e a terra invadida indiscriminadamente. Terra essa fértil representada pela cabaça de acordo com a concepção africana é guardiã da vida, gestora do mundo, útero do universo; mas que sofre e é despedaçada, rejeitada e subjugada assim como o corpo da mulher negra.


A obra literária de Paulina Chiziane inaugura não só uma narrativa social, por assim dizer, mas e, sobretudo o pensar na reorientação histórica dos moçambicanos. Suas escritas sempre primeirizam um amplo rio de possibilidades e profundezas, na medida em que se utiliza da denúncia e crítica sociais para construir o espaço de suas personagens.

Credita um grande valor psicológico na desumanização de papeis sociais e corpos deslocados no sistema escravagista. Fazendo-se assim uma escritora espectadora e ouvinte da experenciação histórica da civilização chope, através da tradição oral que herdara de seus familiares.

O romance pesquisado navega nas entrelinhas da cultura moçambicana, através do trinômio apresentado na estrutura literária de Chiziane. Que ao se preocupar em discutir o papel da mulher em contexto pós colonial, impulsiona seu navio para as margens da ante colonização e colonização trazendo à tona a mulher negra como foco central da reorientação histórica e atribuindo os valores ancestrais de sua cabaça da existência, útero. Projetando entre tantas coisas o leitor para a genealogia do pensamento, construção, organização e viver africanos.

Com isso é possível empreender que as marcas permeantes do fazer ficcional só se compreendem na medida em que atribuímos o produto de imagens a literalidade contida à obra da autora e ao título por assim dizer. Que mencionado já é passível de interpretação, mas que se faz entendível na medida em que as retinas do leitor se atentam a cada fato da gênese literária de Paulina Chiziane.

____________________________________

Artigo apresentado na UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS – UFMG. GRUPO DE PESQUISA LETRAS DE MINAS - VII COLÓQUIO MULHERES EM LETRAS

 

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

MOORE,Carlos. Racismo e Sociedade: novas bases epistemológicas para entender o racismo. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007.

 

DIOP, Cheikh Anta. Unidade Cultural da África Negra: esperas do matriarcado e patriarcado na antiguidade clássica. Lisboa: Edições Pedago, 2014.

 

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Rio de Janeiro: Editora Fator, 1983.

 

PAVÃO, Suzana Rodrigues. “Nzinga uma lenda, uma história: A resistência africana ao colonialismo português”. In: A Mulher em África: Vozes de uma margem sempre presente. Lisboa: Edições Colibri/Centro de Estudos Africanos – FLUL, 2006. Pp. 155-167.

 

PADILHA, Laura Cavalcante. “Bordejando a margem – escrita feminina, cânone africano e encenação de diferença”. In: A mulher em África: vozes de uma margem sempre presente. Lisboa: Edições Colibri/Centro De Estudos Africanos – FLUL, 2006. p. 469-487.

 

FERREIRA, Aurora da Fonseca. “A Contribuição da mulher na formação do saber e do conhecimento”. In: A mulher em África: Vozes de uma margem sempre presente. Lisboa, Edições Colibri/Centro de Estudos Africanos – FLUL, 2006. pp. 51-67.

 

MATTA, Inocência. “Mulheres de África no espaço da escrita: a inscrição da mulher na sua diferença”. In: A Mulher em África: vozes de uma margem sempre presente. Lisboa, Edições Colibri/Centro de Estudos Africanos- FLUL, 2006. Pp.421-440.

 

NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do Negro Brasileiro: processo de um racismo mascarado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

 

SOBRAL, Cristiane. Só por hoje vou deixar o meu cabelo em paz. Brasília: Dulcina, 2014.

 

SOUZA, Elizandra. Águas da Cabaça. São Paulo: Edição do Autor, 2012.

 

DA SILVA BONFIM, Vânia Maria. “Afrocentricidade: uma abordagem epistemológica inovadora /A identidade contraditória da mulher negra brasileira”. In: O drama da mulher negra: seu desfazimento e reconstrução. Brasil, Editora Selo Negro, 2009.

 

 

 

 

 

 

 

[1] Conceito adotado por investigadores africanos que estudam África a partir da própria experienciação das populações africanas.

 

[2] Berço meridional/sul compõe o continente africano e berço setentrional/nórdico os países europeus e indo europeus segundo Cheikh Anta Diop.

 

[3] Leucodérmicos é um termo epistêmico científico para falar de pessoas com baixo teor melanodérmico (melanina) utilizado por Cheikh Anta Diop, Theóphile Obenga dentre outros investigadores.

 

[4] Autonomeação é um paradigma conceitual da Afrocentricidade cunhado por Molefi Asante em 1970. É  relacionado a reorientação da genealogia histórica dos povos africanos.

 

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