DO CAOS ÀS CORES - O CINEMA AFRICANO DE ANDREW DOSUNMU

June 17, 2016

 

INTRODUÇÃO*

 

São famosas as imagens do catálogo de visitas dos irmãos Lumière entre 1896 e 1897, que “possuía cerca de sessenta filmes de viagens realizadas na região do Magreb: Argélia, Marrocos e Tunísia”, imagens feitas por Alexandre Promio, famoso operador de câmera dessa companhia. Segundo Joel Zito Araújo, cineasta e pesquisador brasileiro, no entanto, essas imagem contribuíam para um imaginário pejorativo sobre o que era a África e o africano e africana, apresentando uma ideia eurocêntrica e de representação questionável, “colocando-os como exóticos, animalescos, primitivos e apagando a pluralidade étnica e geográfica do continente”. Isso obviamente contribui para uma formação social e política europeia que se modelava, à época, por sua superioridade aos africanos, justificando a colonização e a banalização do corpo e da vida em geral do povo do continente africano.

Houve diferenças nesse tipo de colonização por imagens, cita Zito Araújo (2015), que "enquanto os britânicos e belgas instalaram unidades de produção na África para produzir filmes coloniais específicos ao público nativo, inclusive incorporando-os ao trabalho como parte do elenco ou da equipe técnica, ‘os franceses não possuíam nenhuma política para produção cinematográfica que fosse especialmente planejada para seus subordinados na África’ (Manthia DIAWARA)”. Os métodos eram diversos, mas todos exploratórios e pejotarivos. No início do século XX surge então a primeira escola de cinema africana, a egípcia, “seu primeiro filme foi projetado e realizado em 1907” e hoje o Egito é o terceiro país no mundo onde o cinema nacional é preferido, ainda segundo Zito Araújo (2015). Sobre o que seria o cinema africano Manthia Diawara, professor da Universidade e Nova York, cineasta e escritor, diz em uma entrevista a Leonardo Luiz Ferreira que "o cinema africano nasceu com a independência dos países africanos, como uma missão de autorrepresentação, definir de si próprio, e como um meio artístico e espaço para a produção de culturas africanas autênticas”. É importante frisar que qualquer definição de cinema africano inclui os filmes feitos por diretores da África e da Diáspora africana; o uso de línguas africanas nos filmes; e o comprometimento – particularmente na fase inicial (anos 1960) – para descoloniza e criar imagens revolucionárias (...). Muitos historiadores conectam o nascimento do cinema africano ao filme Barom Saret (1963), de Ousmane Sembène, que você pode assistir abaixo:

 

 

Não porque é o primeiro filme africano já feito, existiram filmes anteriores feitos por diretores no Egito, Sudão e África do Sul, etc. Mas Barom Saret foi considerado como o primeiro reflexo narrativo a pegar a identidade africana moderna como um objeto de estudo; ainda que ele empregue o discurso do “novo homem/mulher” como postulado por Frantz Fanon, Kwameh Nkurumah, Leopold S. Senghor e Amilcar Cabral. Fanon costumava dizer que ‘não existe cultura, apenas a cultura nacional’. A historicidade de Barom Saret vem da decisão de Sembène em colocar o contexto de definição de uma nação africana em busca de uma linguagem de autodeterminação e soberania. Sem esquecer que assim como o continente africano o cinema africano é bastante diverso. E é a partir dessas perspectivas colocadas por Joel Zito Araújo e Manthia Diawara, que encontro no cinema de Andrew Dosunmo uma luz própria na Diáspora africana. Andrew nos leva de Nova York direto para a Nigéria através das cores empregada em seu filme Mother of George de 2013.

 

 

 

 

O filme teve envolvidos nas seguintes premiações: Associação de Críticos de Cinema Afro-Americanos (AAFCA), 2013, Prêmio de Melhor Filme Mundial;

Premiação Black Reel, 2014, Melhor Atriz em Filme Danai Gurira; Premiação Chlotrudis, 2014, Melhor Fotografia; Festival de Cinema FEST de Novos Diretores e Novos Filmes, 2014, Melhor Filme de Ficção; Conselho de Revisão Nacional, EUA, 2013, Dez Melhores Filmes Independentes; Festival de Cinema de Sundance, 2013, Prêmio de Melhor Fotografia Dramática; Premiação do Círculo de Críticas de Cinema Feminino, 2013, segundo Lugar - Melhor Filme Sobre uma Mulher. E conta com o elenco formado por : Danai Guria, Isaach de Bankolé, Anthony Okungbowa, ukky Ajayi, Yaya DaCosta e outros. E é uma co produção entre Nigéria e EUA.

O trabalho seguirá tentando compreender como o diretor Andrew Dosunmu atravessa o caos, mas não o esgotar e trabalhar na sua intensidade com o uso das cores e da luz, esse caminho se fará também com apresentação de imagens do filme.

 

 

 

NO CAMINHO DAS CORES

O filme começa com um homem caminhando em meio a multidão de uma cidade movimentada fora de foco, um homem negro com uma camisa de um azul bem forte, ele se aproxima cada vez mais até invadir a tela, na cena seguinte este mesmo homem aparece centralizado entre outros homens e entendemos então que existe um drama e que ele é o centro desse drama. Ou seja, seus passos naquela rua nos levou diretamente para onde o diretor pretende desenrolar o drama: uma Nigéria familiar, de onde dificilmente somos tirados, senão pelos atravessamentos que fazem nossas percepções tremerem todo o tempo.

 

 

 

Nessa cena, diferenciamos o ator principal dos outros homens, mas também o tiramos do ambiente de uma cidade grande, barulho, e intensa movimentação de cidade, para jogá-lo e só então entendê-lo nesse outro lugar, algo de muito importante está sendo dito. Para frente entendemos que não é apenas isso, mas as duas primeiras cenas nos dá uma espécie de dimensão do caos às cores, como se o diretor nos tirasse do caos da grande cidade ocidental e nos repousasse nas cores daquela família que se apresenta, ele nos fez atravessar a rua junto daquele homem, explorar a sensação de vê-lo explorar a tela e nos trazer de volta a compreensão reunindo-o aos seus que identificamos com as cores vibrantes da cena. É como se ele nos dissesse: atravessamos o vasto mundo do plural, do irreconhecível, o lugar onde tudo está acontecendo com pressa e paramos aqui nas cores que vão nos oferecer algo sobre isso tudo. E dito isso, então pode se começar a trabalhar a obra de arte que é esse filme, ele atravessa o caos e nos dá o resultado em cores. É importante dizer que em nenhum momento a cidade aparece de fato, nós apenas a percebemos, de maneira bem clara, inclusive, nós podemos saber da cidade vibrantemente violenta ao fundo, mas ela está sempre desfocada, talvez para nos lembrar que o mais importante se passa no seu atravessamento, ou seja, nesse caso, naquilo que se diferencia dela mesmo estando ela ali como recipiente. Todo o mundo é então uma pequena Nigéria dentro da Cidade de Nova York, uma Nova Yorke que a gente só conhece através de Sade Bakare, amiga de Adenike, a atriz principal, que usa roupas ocidentais e fala de sua vida na cidade.

 

O diretor consegue então trabalhar dentro de um condensado caos, a grande cidade que está o tempo todo ali nos manda informações que chegam distorcidas, não muito completas, talvez complexas e indecifráveis, mas sempre presente, e como num organizador de mundos o mais potente que nos chega é a pequena Nigéria familiar. É claro que esse espaço é transformado pelo que vem de fora, Sade, a amiga, é prova viva disso. No entanto, está tudo ali, é esta maestria em lidar com espaços no filme que eu chamo de caminho do caos às cores. O filme não atravessa completamente o caos, ele chega num ponto preciso para fazer sua arte acontecer, e isso, para mim, explode e se comunica nas cores. Porque se enganaria quem pensasse que as cores são aleatórias, as vejo inseridas num contexto religioso yorubá, uma áurea azul que envolve toda a iluminação do filme é praticamente a história daquela família sendo contada em paralelo, esse azul é predominante e persistente. Essas cores significam energias distintas, como de fertilidade, de cuidado e educação, cada cena pode nos dizer muito sobre o que pensar ou sobre referências já existentes no mundo yorubá, o diretor foi bastante assertivo e minucioso ao nos deixar sempre dentro da cena e nos dando, a medida de cada emoção vivida pelos personagens, informações para além das imagens com as cores empregadas em cena, guiando-nos através dessas cores, que tem significados precisos nessa cultura.

 

E então temos uma cena onde aparece somente o rosto de Adenike, a esposa, e entendemos que o caos não poderia ter sido de fato completamente atravessado, nessa hora apenas entendemos que o diretor segurou ali, no meio de tudo, algo disso nas mãos para trabalhar com ele. O que aquele rosto em close poderia nos trazer ficamos esperando ansiosos durante aqueles segundos.

 

 

Então na cena seguinte a gente já consegue ver que é nessa mulher que os atravessamentos da trama serão trabalhados, acompanharemos através dela as oscilações do drama, os atravessamentos no caos, uma linha trêmula, mas cheia de indicativos. Ela recebe uma missão das mais velhas e a partir disso a gente pode acompanhar o que o diretor consegue apanhar do caos para  trabalhar.

 

 

 

TRABALHANDO NO CAOS

Os atravessamentos são colocados na tela com Adenike caminhando pela cidade, isso faz com que ele, o diretor, simplesmente sintetize o caos estando ela mesma nele, suas cores vibrantes a diferencia do resto da cidade, e o recurso de câmera lenta, algumas vezes aplicado por ele, faz com que imaginemos que aquele é um momento de síntese ou de apreensão do todo para aquela cena. Adenike está levando e trazendo informação e ao mesmo tempo trabalhando com ela, é o sensório motor posto em prática, ao jeito nigeriano de fazer, funcionando e liberando através das cores em movimento. Nesse movimento, o diretor faz com que todos passem pela cor, apesar de conseguirmos encontrar em Adenike o principal personagem dessa ação, como num teste de resistência ao caos, como se fosse isso uma prova da força de se conseguir trabalhar nesse lugar onde tudo é perigoso e pode escorregar a qualquer momento.

 

 

Faz isso em cenas que são verdadeiras obras de arte visuais, pinturas onde as cores se mesclam e se combinam, outra prova de resistência muito bem sucedida, que faz nossos sentidos trabalharem sempre no intuito de apreender alguma coisa, daí conseguir alguma condensação, mas trabalhando aí mesmo, onde tudo é cor e caos em movimento ao mesmo tempo que irrompe percepção de uma cena inteira, de um sentido inteiro ou de um conceito. Não é espantoso que todas as cores mais amplas são fortes, o diretor consegue fazer com maestria aquilo que a grande maioria dos artistas visuais dizem ser difícil, iluminar e colorir o corpo de uma pessoa negra, aí Andrew dá uma aula, não somente em cinematografia e iluminação e fotografia, mas contribui eficazmente para o desmonte de um preconceito instaurado há séculos, qualquer cena do filme poderia emoldurar qualquer galeria de arte. O caos onde Andrew trabalha não é somente o caos filosófico muito bem elaborado no filme, mas o caos do racismo, e como poucos, acerta no alvo. Entre tudo o que ele diz, algumas coisas são: um africano falando sobre africanos, ainda que seja na diáspora, tem maior probabilidade de tratar isso de modo peculiar, isso além de arte é um engajamento político e se o diretor estiver imbuído disso, o fará bem. Outra coisa é que poderia se afirma que é tudo uma questão de boa iluminação, então o filme o tempo todo nos agride com nossa própria ignorância colocando em vários pontos das fotografias luzes de verdade, como as vinda da janela ou lâmpadas, o que nos surpreende é que sua destreza vai além, a grande maioria das cenas são pouquíssima iluminadas, as luzes são figurativas, as cenas continuam escuras.

 

Andrew então nos dá outro tapa, a questão está para além dos recursos cinematográficos, filmar pessoas negras é mais fácil do que se imagina. A pergunta é: o que quer se ver na tela? De que forma esse cinema precisa se apresentar para o público? Andrew mostra que não há nenhum problema em quebrar paradigmas, ou mostrar os nossos.

 

 

IMAGENS RELEVANTES DE PONTOS DE LUZ

Gosto de lembrar que em cada cômodo os pontos de luz, figurativos que sejam, que iluminam a cena são perfeitamente visíveis, embora a grande maioria das cenas tenha uma obscuridade que faz um lindo contraste sob uma aura azul. Na segunda cena, por exemplo, estão às vistas vários cristais de luz acima das cabeças dos homens que reluz no laranja de suas roupas. Abaixo separei algumas que achei relevante, podemos ver o abajur, a luminária da mesa, na parede, a luz chegando da janela, todas sempre bastante visíveis:

 

 

 

 

 

 

CONCLUSÃO

Esse resumo-análise buscou analisar o filme Mather of George do nigeriano Andrew Dosunmu buscando compreender a narrativa filosófica da obra e também a organização teórica e cultural apresentada no filme, isso apoiada as pesquisas do cineasta Joel Zito Araújo e sutilmente tomando emprestado as ideias de Deleuze sobre trabalhar no caos. Procurou também mostrar em que ponto o nigeriano captura do caos a formula para seu filme e trabalha com ela explorando as cores e a luz que irrompem em belas fotografias.

 

E aqui abaixo, você pode assistir o filme completo já liberado para as redes. Aposto que você vai se apaixonar!

 

REFERÊNCIAS

África Cinema Um olhar Contemporâneo

Leonardo Luiz Ferreira (org.).- Rio de Janeiro: Caixa Cultural, RJ, Junho de 2015.

Campelo, Thiago

Não São As Imagens /Thiago Campelo http://naosaoasimagens.com/2014/11/02/mother-of-george-2013/ Em 30 de Agosto de 2015.

Deleuze, Gilles

La Peinture et la Question des Concepts – Peiture Cours (fragmentos)/ Gilles Deleuze; transcription Damien Houssier. – Cours 15 e 16 de 1981.

Mother of Georgehttp://www.adorocinema.com/filmes/filme-204829/creditos/ Em 30 de Agosto de 2015.

 

* Agradeço a generosidade do grande cineasta Joel Zito Araújo por liberar seus estudos particulares a estudantes da oficina de cinema ministrada no ano de 2015.

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