Joe Beasley, o famoso ativista dos Direitos Civis Norte Americano, no Brasil.

November 29, 2016

 

 

Foto do Evento da página pessoal de Flávia Oliveira. Da esquerda para a direita estão: Flavia Oliveira, Henrique Braun, Joe Beasley, José Vicente e Caio Magri.

 

 

Na tarde de uma segunda-feira, 28 de Novembro, mês que no Brasil se comemora a Consciência Negra, a Coca Cola Brasil recebeu no auditório de seu elegante prédio em Botafogo, no Rio de Janeiro Joe Beasley, ativista dos Direitos Civis nos Estados Unidos da América do Norte. Tendo como mediadora a inteligentíssima e bem articulada jornalista Flávia Oliveira, de quem inclusive me partiu o generoso convite para acompanhar a reunião, que aceitei feliz e certa de que participaria de um grande e precioso  momento. O evento contou com presenças como a de Mãe Beata de Yemanjá, Babá Adailton Moreira, Babalaô Ivanir dos Santos, Henrique Braun, presidente da Coca Cola Brasil, José Vicente, presidente da faculdade Zumbi dos Palmares, assim como do ator Érico Brás, entre outras importantes figuras do empreendimento afrobrasileiro, articuladores e representantes da ONU Mulher no Brasil.

 

 A jornalista Flávia Oliveira e o ativista dos Direitos Civis Norte Americano Joe Beasley

 

E, diante da bela vista através da parede de vidro do alto do prédio que nos possibilitava ver um belo cenário da chamada cidade maravilhosa, discutiu-se as possibilidade de tornar o mercado de trabalho mais diverso, um senso comum no debate foi sobre a necessidade de que pretos e pretas precisam, como meios de avanço social, ter poder aquisitivo e financeiro. Entendendo isso, partiu-se para o especulação de como obter tal feito dentro do universo empresarial da Coca Cola Brasil. Em meio a muitos elogios aos empreendimentos da Coca Cola Brasil no seu emprenho em tornar seu quadro de funcionários mais plural, houve as não surpreendentes críticas sobre esse processo. Continha nas falas de Beasley exclamações do tipo: sim, a Coca Cola está em diversos países da África, por exemplo, mas o que isso quer dizer? Quer dizer que estamos todos bebendo Coca Cola, mas isso não é significativo, não queremos beber a coca cola, nós queremos ser a Coca Cola, disse ele, sobre a necessidade de observar a exploração financeira em países africanos e outros sem que a população preta local compartilhe dos lucros e privilégios obtidos com isso de forma coerente. Derivado disso, também nos veio o questionamento sobre os porquês de não haver uma presidência preta na empresa num país majoritariamente preto, num país que tem aí mais de doze anos de cotas raciais, o que encheu nosso quadro de profissionais pretos qualificados. O presidente Braun nos informou que cem por cento do quadro de Aprendiz é de pretos e pretas, mas apenas dois trainees são pretos, a partir de uma política nova de implantação de igualdade, e nenhum preto ou preta está em quadro de comando. A partir dessa informação o que constatamos? Que continuamos sendo a mão de obra menos qualificada das empresas, sem acesso aos cargos de comando e ganhando menos. O que deveria soar como uma boa iniciativa para a inclusão de pretos e pretas no mercado de trabalho e sua capacitação, nos chegou na verdade como a perpetuação do sistema escravista moderno, onde só contribuímos com a mão de obra barata e em troca algum incentivo educacional que sem uma conjuntura direcionada não nos possibilita chegar aos cargos mais elevados da própria empresa que nos contrata.

 

No entanto, extremamente florescentes foram as elucidações de José Vicente, contundente e direto, e de uma elegância notável, falou dos equívocos de misturar as questões raciais do preto a todas as outras demais questões consideradas de minoria, e deu como exemplo ter que chamar um evento para tratar das questões do preto de “Diversidade”, levando a questão específica novamente e sempre para o fim de linha. Se é pra cuidar da questão do preto que se faça isso de maneira direta e assertiva, sem tentar diluir tais questão em outras, por mais que as outras sejam também importantes é preciso ter foco para evitar que o racismo se aproveite dessa estratégia nos inviabilizando mais uma vez. Também colocou a necessidade de se levar isso para o âmbito jurídico legislativo, o que formulou como fundamental para a obtenção de sucesso nesse processo.

 

Duas falas importantes foram as da doutora Vânia Sant’Anna que nos lembrou do crime previsto por lei de não se manter um número adequado de funcionários pretos em seu quadro de serviço, mas também quais lugares esses funcionários estariam ocupando, assim como quando passaremos das pesquisas para as implementações efetivas de um quadro qualificado pela própria empresa, já que a educação pública a qual a maioria dos pretos estão inseridos, não solidifica base intelectual e profissional suficientemente relevantes aos cargos. Como resolver isso? Ela teve sua resposta, mas não foram nada práticas. A Coca Cola Brasil na voz de seu presidente disse que existe um longo empreendimento para pessoas pretas em sua empresa, inclusive fomentando sua educação adicional, mas, como escrito antes, ainda permanecemos preenchendo cem por centos apenas dos cargos de base e de menor salário, sem poder de decisão e mando. Contudo, o novo presidente Braun, que assumiu em Setembro desse ano, se mostrou bastante solícito a atender as solicitações e a ouvir mais propostas de práticas.

 

A importante fala do diretor do instituto Ethos, Caio Magri, que apresentou as linhas do Guia de Equidade Racial, frisa que se continuarmos nessa velocidade de interesses e ações, vai levar 80 anos para haver alguma equidade de gênero e, pasmem, 120 anos para que haja alguma igualdade racial financeira. O genial Doutor Joe Beasley disse então “Não podemos esperar!”. Joe Beasley disse mais, fez uma crítica ao governo Obama, “foi um governo branco, embora tenha havido avanços”. E nos alertou para um fato importante: marchar somente não adianta, deve haver uma política de ação direta. E sobre isso gostaria de colocar um fato narrado por José Vicente quando da formação da faculdade Zumbi dos Palmares, disse que a opinião pública fez inúmeras críticas negativas a iniciativa quase levando-a ao fracasso, foi quando ele acionou o Instituto de Joe nos Estados Unidos da América do Norte e de pronto foram enviados ao Brasil dezenas de profissionais de publicidade e áreas afins que fizeram um trabalho de formação de opinião, assim como contatar todas as empresas americanas no Brasil para isso. Uma história que nos emociona primeiro, mas logo depois nos ensina: 1. a importância de agirmos como um povo unido no continente ou na diáspora; 2. a necessidade de formar quadro de pretos e pretas capacitados para agir direto com o mercado e com a opinião pública, assim também como um grupo de apoio especializados em áreas diversas, capazes de articular nossa ascensão, observando sim nosso contexto histórico específico de opressão, mas agindo sobre isso diretamente.

 

Foi uma linda reunião, um momento rico e profícuo. Aprendamos com Joe Beasly a honestidade de nos utilizarmos do capital a nosso favor, sabendo do peso da nossa mão de obra e de nossa intelectualidade. O presidente estava a seu lado e para uma plateia majoritariamente preta ele disse, “vocês são maioria e tem o poder de decisão, se não estão satisfeitos com o presidente –apontando para o presidente da Coca Cola – tire-o”. Muito simpático, porém, desejou que a Coca Cola tenha sucesso e permaneça com sua política de incentivo a igualdade dentro de sua empresa: “eu quero que a Coca Cola tenha sucesso, é importante para nós que a Coca Cola tenha sucesso”.

 

Para terminar, gostaria de transmitir aqui nesse texto a fala muito bem humorada, mas de profunda eficácia do Doutor Freemam, companheiro de luta dos direitos civis com o Doutor Beasley, que disse que não dá para entender como em sendo a maioria da população brasileira preta, votem e elejam pessoas brancas, não dá para entender que vocês elejam pessoas que não defendam seus interesses, que fazem mal para vocês “é louco!”. Vocês, em sendo maioria, tem nas mãos o poder de eleger quem quiserem, como podem eleger brancos? “É louco!”.

O Doutor Joe, em sua fala, trouxe para aquela elegante sala a lembrança de que a grande maioria da população preta brasileira “vive como cachorro”, sem a menor condição mínima e digna de vida, nas favelas, por exemplo, ele diz que nós não podemos aceitar viver nessas condições. Joe Beasley, o histórico ativista da luta dos direitos civis americano nos disse que não podemos aceitar isso.

 

Joe Beasley disse que em Maio de 2017 volta ao Brasil e que tentará fazê-lo ao menos duas vezes ao ano. Esperamos ansiosas.

 

 

Galeria de Fotos.

 

 

Fotografias tiradas da página pessoal de Flávia Oliveira.

 

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