FÓRUM DE DIVERSIDADE ÉTNICO-RACIAL NOVA IGUAÇU: UMA PROPOSTA

June 18, 2017

 

Fotografia de Naiara Paula, Projeto Arte de TERREIRO.

 

 

 

 

“Uma mesma civilização produz simultaneamente duas coisas tão diferente como um poema de T. S Eliot e uma canção de Tin Pan Alley, ou uma pintura de Braque e uma capa da Saturday Evening Post. Todas elas são manifestações culturais e, aparentemente, fazem parte da mesma cultura e são produtos da mesma sociedade.” Greenberg, p. 27.

 

 

Pensar numa produção artística para um fórum de diversidade me instiga então a pensar nas diversas formas de artes e de artistas do mundo, assim como seus diversos historiadores e críticos. Nesse momento, minhas leituras me aproximam de historiadores e filósofos como Greenberg, Danto, Nietzsche e Rancière, por causa dos meus estudos em filosofia da arte ocidental na academia. Mas minha mente, meu coração e minha principal intenção de pesquisa estão em África. No entanto, por causa desses estudos, são esses filósofos supracitados que nesse momento me ajudam a pensar, ou dois deles, ao menos para este texto. De modo algum para afirmar a qualidade ou a veracidade de obras e manifestações artísticas afrodiaspóricas, mas tão somente para ajudar pensar os conceitos do referido tema. E começo então chamando a atenção para isso, o que a sociedade teima em negar: que um povo é capaz de produzir cultura material diversa, e que uma não invalida a outra, ao contrário disso, juntas são materiais de riqueza para sua população. Então é por esse caminho que eu pretendo começar a pensar políticas afirmativas na área da cultura para a população preta da cidade, somando voz com muitos pesquisadores e com as da própria população preta, afirmando nossas manifestações artísticas, sejam elas as populares, tradicionais, clássicas e milenares, porque podem aparecer de muitas formas diferentes. Obras essas que não precisam de validação, pois já estão aí como tal muito antes, por exemplo, das obras europeias. Mas que por conta da escravização e do racismo precisa hoje de uma luminosidade, de um resgate.

 

O que segue depois desta citação pelo autor é uma tentativa de explicar que, embora certas produções possam ser bastante diferentes umas das outras, são valiosas em si mesmas e em contribuir para a formação cultural de uma sociedade, além de enriquecê-la primorosamente. O autor se pergunta: essa disparidade faz parte da ordem natural das coisas? Ou é algo novo e específico de nossa época? E se responde dizendo que para entender isso é necessário mais do que uma investigação estética, que: “É necessário examinar mais de perto e com mais originalidade o que se tem feito em relação a experiência estética como ela é compreendida pelo indivíduo específico – não o indivíduo em geral – e os contextos históricos e sociais em que essa experiência ocorre.” Greenberg, p. 27.

 

Essa pequena e valiosa proposta já nos serve de caminho possível para o que precisamos fazer. Ela nos serve de introdução para entrar na questão que nos acerca nesse fórum: a diversidade. E eu não gostaria de falar da questão do preto brasileiro, de Nova Iguaçu ou de qualquer lugar do mundo dentro de um tema chamado “diversidade”. Porque a primeira coisa que devemos salientar é que questões relativas a população preta sempre é diluída em questões gerais. Então eu espero que se a intenção do convite seja para propor questões sobre a população preta, que isso seja ressaltado aqui e agora. Vamos falar, conversar, propor questões específicas para a população preta. Assim, diretamente. Essa questão, pelo menos aqui, não será diluída em termos gerais. O racismo histórico que vivemos nos lança para longe de compreendermos que existe uma questão preta para ser resolvida, então, quando lembramos de colocá-la em prática ela precisa ser acoplada a questões gerais e a mais comum é exatamente “diversidade”. O que é promover a diversidade? É inserir pessoas pretas nas atividades comuns da cidade? Se a questão é sobre o entendimento de que pessoas pretas mediante ao sistema racista estão fora da participação comunal, então a questão é racial sim, porém bem direcionada a população preta. Gizêlda Melo Nascimento no livro “Guerreiras de Natureza” diz o seguinte: “é sabido que o que não se discute não constitui um problema. Então o Brasil é realmente o celeiro de uma ‘democracia racial’ (...). E, senão constitui um problema, vivemos num paraíso.” Então, a primeira coisa que devemos fazer é admitir que há um problema e o problema é o racismo. Desmistificar a ideia de que não há racismo e apontar veementemente cada caso direto ou estrutural desse ato brutal que não impedem somente o acesso das pessoas pretas a vida pública, mas as excluem da própria vida, é fator absolutamente necessário na discussão. No Brasil de hoje, 83 pessoas pretas morrem todos os dias. Isso quer dizer que nenhuma pessoa preta pode ter certeza de que chegará em casa no fim de seu dia, não pela fatalidade da morte que uma hora chega para todos, mas pela certeza de que é alvo do racismo, e o racismo vai matá-lo. Nós devemos pensar todas as formas de inclusão social para o preto brasileiro e de Nova Iguaçu, mas devemos pensar principalmente que se ele não estiver vivo não poderá gozar de nenhum plano que traçarmos aqui, então é preciso aceitar que o racismo está dizimando nosso povo e agir contra isso ao mesmo tempo que procuramos alternativas culturais. É preciso pensar que a população preta vive em lugares muitas vezes insalubres, sem água encanada ou potável, sem transportes, lazer ou uma educação completa, que não pode incluir somente o ensino básico, mas toda uma formação cultural e intelectual para que ele possa eleger suas possibilidades. É preciso lembrar que o senso de 2014 apontou que 3 em cada 4 pessoas dos 10% mais pobres da população são negros o que equivale a 76% dos 10% mais pobres desse país. Então, como uma população tão pobre, em geral, vai chegar a se beneficiar dos meios culturais ou mesmo chegar até ele? É preciso que as secretarias municipais se unam e cheguem até eles nesse sentido, é preciso que olhemos para eles, os escutemos e suprimamos suas demandas enquanto cidadãos ocupantes e participantes da cidade. É preciso pensar numa maneira completa de, efetivamente, fazer isso funcionar. De efetivamente fazer isso!

 

Voltando a provação inicial de sobre como a cultura é formada por diversidades, permita-me fazer o recorde antes anunciado. A sociedade brasileira é um grande mosaico, mas a cor preta está visivelmente ressaltada enquanto construção cultural, intelectual, linguística e até arquitetônica. Falar de cultura brasileira é falar de cultura preta, sem medo de errar. Trazer para cena como se deu a construção da identidade preta nesse sentido é fundamental para entender o país. Então, a proposta de investigação para a promoção da inserção da população preta nas atividades culturais da cidade passa pela investigação histórica desse povo e, pela real organização de instituições que ouçam as vozes dessas pessoas no dia de hoje, agora. Passa fundamentalmente pelo respeito as religiões de matriz africana, que durante séculos guardou a cultura africana em seu seio, pela garantia de sua liberdade e segurança para continuarem exercer suas práticas religiosas tradicionais, assim como de preservar essa cultura na manutenção do ensino através da oralidade e práticas artísticas e afins. É preciso ouvir esses religiosos, abrir os olhos para a riqueza do pensamento preto contido ali, não diluir isso em termos gerais. Trazer essas pessoas para conversar e investigar seus talentos e ajudar a aprimorar, se for o caso, suas manifestações artísticas e visibilizar seu circuito.

 

O filósofo Rancière numa escrita sobre Homero ressalta o seguinte: “Ele não é um inventor de belas metáforas e de imagens brilhantes. Simplesmente vivia num tempo em que o pensamento não se separava da imagem, tampouco o abstrato do concreto. Suas imagens não são nada mais que o modo de falar dos povos de seu tempo.” Rancière, p. 29.

 

Precisamos aprender a não pensar isso somente para nomes europeus cunhados na história, é preciso redirecionar nosso olhar, redirecionar para a África, para o Brasil, para a população afrodiaspórica, principalmente por entender que esse processo de fazer do seu próprio tempo uma obra de arte, não é diferente em outros continentes: “A cultura material africana é um repositório dos mitos milenares e das observações do mundo atual”. Ou ainda:

 

“A arte é o verdadeiro veículo da comunicação e determina os estabelecimentos dos vínculos e alianças entre os planos sagrados e humano. Assim, são as máscaras, esculturas, adornos de corpo e demais implementos visuais que estabelecem ligações, verdadeiros elos que manterão a unidade do grupo social (...).” Lody, p. 24.

 

Rancière afirma ainda que no caminho de entender o mundo e transformá-lo em arte: “tudo é rastro, vestígio ou fóssil. Toda forma sensível, desde a pedra ou a concha, é falante. Cada um traz consigo, inscritas em estrias e volutas, as marcas de sua história e os signos de sua destinação.” Ibdem, p. 35.

 

Igualmente acontece para outras sociedades. Acontece que, como afirma Sodré:

 

“A relação que se estabeleceu entre o explorador europeu e a África, traduzida na possibilidade de ampla vantagem nas ações mercantilistas, quer do ponto de vista dos minérios, especiarias ou tráfico de escravos, traduz uma visão baseada na superioridade de uma civilização sobre outra, onde se inaugura um binômio: ‘civilizados x oprimidos’. Essa dicotomia irá fundamentar uma ação supostamente legitimada de um sobre o outro, construindo a base de um elaborado discurso preconceituoso, legitimador da exploração de negros na condição de escravos [...]. Deste modo, a relação ‘civilizados x oprimidos’ universaliza-se como suporte das ações preconceituosas, que se difundem até a contemporaneidade.

Do ponto de vista da arte, esta relação é contundente, na medida do entendimento de que somente determinados objetos poderia receber essa honrosa identificação, dede que relacionados com um certo grau de desenvolvimento ou homologação de instâncias superiores de determinados povos.” (Sodré, 2006, p. 31)

 

Aqui vamos trilhar um caminho diferente, um caminho para compreensão desse fato que salta aos nossos olhos e mesmo assim insistimos não ver. Veremos.

 

Como entender a produção cultural e artística num contexto africano e afrodiaspórico? Primeiro, acredito, abolir a obsessão de toda vez que abordar temas relativos a população preta enfatizar e parar na escravização, existe muito mais para antes e para depois disso. Estudar pesquisadores afrodescendentes com pesquisas voltadas para população preta é um caminho assertivo. Reunir artistas e suas obras em exposições, fazer conferências, oficinas, cursos, mostras de arte com as produções específicas dessa população é um caminho prazeroso para se chegar a conhecê-los e incentivá-los a continuar, porque a produção já existe há séculos, colocar no circuito é o que procuramos fazer. A ideia não é, e nunca precisará ser, fazer comparações com a estrutura da arte vigente padrão no sentindo de alinhamento, mas de soma; tampouco analisar uma obra afrodiaspórica pela dos europeus, ou ainda amarrar toda nossa produção à antropologia, mas deixá-la simplesmente fluir como ela é, e, como o filósofo Renato Noguera aponta em seus estudos, mostrar para o mundo o caráter pluriversal da arte, da filosofia e afins. Não é preciso começar por um para explicar o outro, é preciso, se for o caso, mostrar as bases de ambos e dizer “olha, o material cultural pode ser diferente, mas a estrutura é mesma. É arte.” Isso não validaria nada, apenas nos ajudaria na desconstru